Nasi com bala na agulha - Coluna Extra

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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Nasi com bala na agulha

Em setembro de 2007, escrevi aqui no Coluna Extra que o Ira! havia entrado num verdadeiro redemoinho e, de repente, a banda, essencial na minha formação como fã de música, chegava ao fim envolvida em brigas e baixarias à la RPM. Ainda que tenha assimilado e compreendido que toda banda - até mesmo aquele que você mais gosta - é feita de carne e osso, resolvi dar um tempo e parei de ouvir meus disco do Ira!. A banda e o trabalho-solo dos seus ex-integrantes saíram do meu playlist e só voltaram uns três meses atrás quando deu vontade de ouvir Vivendo e Não Aprendendo, o segundo disco da banda, de 1986.

Mas no último fim de semana, fiz as “pazes” com o Ira!. Estava revirando uma prateleira de CDs em oferta de uma livraria aqui de Florianópolis, quando vi, em outra prateleira, uma capa com uma foto familiar e um “NASI” em caixa alta, ocupando metade do espaço. Deixei as promoções e os ressentimentos de lado e fui ver do que se tratava esse CD que chamou minha atenção. “Nasi lançou disco novo?”, pensei - em outros tempos, acompanhando de perto o mundo Ira!, nem teria tal pensamento; já saberia a resposta. Peguei o CD, vi o repertório. Das 14 músicas, conhecia seis. Uma média razoável. Nem recorri aquele esquema de passar o código de barras no leitor para ouvir trechos das músicas. Fui direto para o caixa e comprei o disco assim, no escuro ou, se preferir, em nome dos velhos tempos.

Paguei, fui para o estacionamento, entrei no carro e deixei outro motorista esperando a vaga por alguns minutos até que eu finalmente tirasse o plástico e colocasse o CD para tocar. E que grande surpresa! Fiz até um caminho diferente só para ouvir o disco inteiro, do início ao fim, antes de chegar em casa. Depois, na frente do computador, fui desvendar o que havia por trás daquele disco recém-comprado. Desfeito o mistério: o disco era novo. Nasi montou um repertório eclético, juntou um time de músicos e convidados afinados, criou arranjos caprichados (com destaque para os sopros) e gravou tudo ao vivo, em estúdio. Esse “pacote”, mais um Nasi cantando bem demais, ganhou o nome de Nasi - Vivo na Cena, que já saiu nos formatos DVD/CD e já foi exibido duas vezes como especial da MTV (nos dias 19 e 25 de maio).

Para exemplificar “o que é” Nasi - Vivo na Cena, escolhi uma das grandes surpresas do repertório: a regravação de “Bala com bala”, clássico da dupla João Bosco e Aldir Blanc, imortalizado na voz de Elis Regina, de 1972. O que era um samba, virou um blues funkeado com clima New Orleans. Pedi a opinião da Regina Carvalho, escritora, minha professora nos tempos de faculdade de Jornalismo e fã-pesquisadora da obra de João Bosco. Ela gostou. Ouça e diga o que acha.



Reproduzo abaixo trecho do release do DVD/CD, escrito por Kid Vinil, e que traz um faixa-a-faixa, detalhando as 17 músicas do DVD (no CD são 14; as músicas com * não estão no CD) - o que dá uma boa ideia do quanto o repertório de Nasi - Vivo na Cena é precioso.
1) OGUM: Parceira de Nasi com o guitarrista Nivaldo Campopiano abre o DVD. Nasi cita uma referência importantíssima da história do rock britânico, The Spencer Davis Group.

2) O TEMPO NÃO PARA*: A aula de rock continua com o clássico de Cazuza, numa releitura mais para um blues psicodélico. Um arranjo meio “floydeano”.

3) NÃO CAIO MAIS: Essa música é de uma banda pernambucana chamada The River Raid, que faz parte dessa nova geração de bandas independentes inspiradas em Mutantes e indie rock.

4) VERDADES E MENTIRAS*: Gravada pelo Voluntários da Pátria, em 1983. Uma cultuada banda do pós-punk paulista formada por Nasi, além de Miguel Barella, Frippi, Gaspa e Thomas Pappon (Felini).

5) AQUI NÃO É O MEU LUGAR: Fruto da parceria Nasi e Nivaldo, encontramos uma levada mais pro rock dessa década com ares de Johnny Cash.

6) GAROTA DE GUARULHOS - Essa é uma das tantas boas surpresas desse trabalho. Nasi escolheu uma versão da música “Jersey Girl” de Tom Waits um dos mais geniais compositores e interpretes vanguardistas, feita pelo compositor Carlos Carega.

7) POR AMOR: Música de Zé Rodrix, que fez parte do acústico do Ira!. E traz como convidada a cantora Vanessa Krongold, da banda Ludov. A referência The Who é fortíssima no instrumental dessa nova versão.

8) MILHAS E MILHAS: Música que fez parte do álbum “Entre Seus Rins”, do Ira!, Lançado em 2001, é uma parceria do baixista Gaspa, Nasi e Mauro Matoki (Ludov). Versão com muito drive!

9) TARDE VAZIA: Foi um dos sucessos do acústico do Ira!. Outra composição de Gaspa. Dessa vez, Nasi resolveu dar um jeito mais soul music ao arranjo. O melhor que a musica que já teve.

10) ROCKIXE: Quem não é fã de Raul Seixas nesse país? Por essa razão, também temos o momento “toca Raul” e Nasi escolheu “Rockixe” e ainda chamou Marcelo Nova pra completar os vocais. Homenagem mais que justa ao nosso “rei do Rock”. Parece que foi composta dos dois band leaders.

11) BALA COM BALA: Outra surpresa mais do que agradável. Coisa de gênio do bom gosto! “Bala com Bala” é uma música de João Bosco com letra de Aldir Blanc, eternizada em 1972 pela gravação de Elis Regina. A aula de Nasi continua na referência dada a Dr. John ao arranjo. Minha nossa! Dr. John: esse é mais um que a garotada deveria consultar. Um dos mais importantes músicos de New Orleans. Sua obra passeia entre o jazz, o rock psicodélico, o blues, boogie woogie e os ritmos folclóricos como o Zydeco.

12) CARNE E OSSO: Outra feliz escolha de Nasi, “Carne e Osso” é da banda de pós punk carioca dos anos 80, Picassos Falsos. Já foi gravada até por Marina Lima.

13) ONDE ESTOU?*: Gravada pelo Muzak em seu primeiro álbum ,com letra de Nasi e Ciro Pessoa (Titãs do Iê Iê Iê e Cabine C). Um lado B dos anos 80.

14) DESEQUILÍBRIO: Gravada originalmente pela banda de Olinda, Eddie, em seu mais recente disco. Nasi aproveitou para fazer uma versão mais western/bluegrass.

15) POEIRA NOS OLHOS: Originalmente gravada no segundo disco de Nasi e os Irmãos do Blues. A fonte de inspiração foi a música “Equinox”, de John Coltrane, uma adaptação dessa melodia. Com um sensacional solo de sax dessa lenda viva do rock brasileiro: Manito.

16) EU SÓ PODERIA CRER: Composição de Fred 04, gravada no primeiro cd do Eddie. Com citações dos Stones e Jorge Benjor .

17) ME DÊ SANGUE: Encerra o disco com um afro blues. O percussionista Dinho Nascimento mistura seu berimbum de forma sensacional aos violões e gaita nesse country blues, a la Son House, de Nasi e Johnny Boy.


(Texto de Kid Vinil)
Mais sobre o disco no site oficial do Nasi e na resenha escrita pelo colega Renê Müller, publicada na edição desta quarta-feira do Diário Catarinense.

Um comentário:

  1. Confissão de fé: nunca imaginei João Bosco Rock´n Roll. Mas imaginar essa mescla com o toque boogie? Nasi nunca esteve tão acima do Scandurra, cá na minha mais humilde opinião.
    Thanks, boss.

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