Ramalho canta Dylan - Coluna Extra

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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Ramalho canta Dylan

Publicar release na íntegra não é uma prática do Coluna Extra. Mas vou abrir uma exceção publicando o release (na verdade, um belo texto) assinado pela competente jornalista e escritora Ana Maria Bahiana sobre Zé Ramalho Canta Bob Dylan — Tá Tudo Mudando, novo disco do cantor paraibano, baseado em versões e que começou a ser divulgado nesta quarta-feira.

Ramalho Dylan: Zé Zimmerman da Paraíba

A possibilidade de um paraibano de Brejo da Cruz ter algo em comum com um judeu norte americano das planícies geladas do meio oeste pode parecer insólita até que se realiza que ambos compartilham um profundo amor pela palavra cantada, e que a palavra cantada, no continente americano, viaja rápido e destemidamente, sem tomar conhecimento de fronteiras, nacionalidades e rótulos. Basta olhar para a raiz de seus trabalhos - Zé Ramalho descobrindo repentistas e cordeleiros quando ainda estava no colégio, Robert Zimmerman ouvindo, na mesma época, talking blues do Sul mais profundo. Entre cordel e talking blues estende-se uma ponte muito curta que tem em comum a cultura popular da narrativa poética, antiga como os vedas: a possibilidade de contar uma história, fazer um comentário, tecer considerações, evocar memórias, filosofar, delirar, usando uma base harmônica e melódica. Papiros, tabletes, runas - canções.

Em sua geração de compositores/cantores pós-tropicalistas, Zé Ramalho sempre traçou uma curva distinta, enraizada nessa cantoria, nessa cantação que conta coisas suspensas entre o real e o sonhado, entre vida dura e imaginação febril. Os paralelos, muito naturais, sempre estiveram lá. De certa forma, este é um trabalho há muito esperado.

Aqui estão 12 canções de Bob Dylan, vindas de diferentes fases de sua vasta e produtiva carreira, todas reinventadas por Zé Ramalho. Não são apenas as letras que ganharam seu equivalente no português do Brasil - as canções mesmas descobriram novos laços através dos continentes, transformando-se em xotes, baiões, cocos (depois deste disco, talvez o Mr. Tambourine Man nunca mais seja outra pessoa além de Jackson do Pandeiro...). Não são versões, são transfigurações - atos de magia musical e poética, com um mútuo piscar de olhos entre dois grandes artistas populares.


Ana Maria Bahiana
Novembro, 2008

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