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terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

O oba-oba dos VIPs foi um grão na área de Copacabana

por Sérgio Negrão

Foi isso que tu escreveu mesmo, Alex. Os Stones (leia-se Mick Jagger) diz a mesma coisa. Foi um show atípico, que foge do tradicional deles (altos ingressos e parafernália técnica com direito a muitos fogos depois de Satisfaction). Foi oba-oba para o VIPs e livros de recordes e o Rio foi o lugar escolhido para tal feito. Conseguiram com êxito total. E Mick gostou tanto de “tocar de graça” (ele falou bem assim) que disse que gostaria de fazer de novo, deixando uma esperança de volta ao Brasil antes dos 70 anos.

Pedir para os Rolling Stones tocarem melhor seria pedir demais. Som exceção dos metais, backing vocals, contra-baixo e teclados - os quatro Stones cultuam um errinho básico. Aquele tipo de erro que só eles podem cometer. Enquanto Ron Wood manda uma nota Lá, Keith Richard crava um Sol Sustenido e ainda faz pose. Mick entra atrasado nas estrofes, se atrapalha e a batera de Charlie Watts tenta amarrar tudo com um nó que aprendeu em 40 e poucos anos, mesmo chegando a finais desajeitados. Eles erram maravilhosamente bem.

Agora, tirando os 4 mil VIPs, o grande efeito dos Stones (e aí se vê que fica difícil comparar qualquer coisa a eles) foi sobre o "resto" (eu, por exemplo). O “resto” a que me refiro é o outro 1.996.000 milhão de pessoas (tinha 2 milhões com precisão). A banda parou as favelas do Rio - noticiário zero no dia seguinte. Fui pro show a pé. De Botafogo a Copa, passando por túnel e tudo. Tranquilaço. Mas cheguei na praia só às 8 da noite. Devo ter ficado na vaga número 400.347, diante de um telão.

Na minha frente na areia de Copa em pleno show, tinha uns dez negões da favela. Uma garrafa de uísque de R$ 10, uma de conhaque Dreher e um saco de cola. Começaram com pequenos goles. Dali a pouco já estavam emborcando as garrafas. Isso entre uma cheirada e outra. E eu, turista, acompanhado da minha namorada, pensando na confusão que poderia acontecer a qualquer momento. Parecia que estavam se preparando para um mini-arrastão. De vez em quando um desmaiava e era reanimado pelo amigo mais próximos. Depois bebiam um gole cola-cola e jogavam a sobra na cabeça - só pra refrescar.

Enquanto isso o rock comia solto e eles, entre desmaios, dançavam e tentavam cantar as letras dos Stones. Nem olhavam pra mim - que estava na muvuva com mochila, celular, namorada, relógio, carteira, binóculos e o mais precioso: sanduba e água de coco geladaça. Só se abraçavam e pulavam juntos como se estivessem no melhor lugar do mundo. Será? Acho que sim. Aquela praia foi abençoada pela música de um bando de sessentões.

No final do show tinha um negão lambendo a cara do outro de tão louco. Queria imitar os movimentos da animação do palco dos Stones, que mostrava uma imensa língua querendo lamber o público.

Tem muito mais história, claro. Mas, do oba-oba, fiquei só com o OBA. Grande show, imenso público. E o U2 fez mesmo um bom show. Muito bem tocado pelos músicos. Mas nada que fuja de um mega-show normal.
Sérgio Negrão é editor do jornal O Estado e vocalista das bandas Quarteto Banho de Lua e Stone Beat

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