Marca-Texto # 01 - Coluna Extra

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quinta-feira, 14 de julho de 2005

Marca-Texto # 01

Para sua leitura não perder a linha

por Adriane Canan

À Lygia. E à Ana

Minha admiração por Lygia Fagundes Telles é antiga. Quando li “Pomba enamorada ou Uma história de amor”, me senti presa. Não conseguiria mais esquecer. Alguns anos depois, quando encontrei a escritora caminhando pelos corredores da Feira do Livro de Porto Alegre (momento delicioso da capital gaúcha, principalmente para quem ama a literatura e a primavera!) me senti na obrigação de agradecer-lhe. Coisa mais linda é escrever assim, Dona Lygia!
Já a Ana eu conheci em poucas conversas. Ela é ascensorista, num prédio bem antigo da Rua da Praia, também em Porto Alegre. Eu ai sempre lá pra buscar uma pessoa. E esperava no hall de entrada. E ela estava sempre lá. Dentro do elevador. E sempre lendo alguma coisa. Um dia provoquei, meio óbvia, pra começar a conversa: “Gostas de ler?”. Ela estava lendo Saramago. Fechou o livro com cuidado e olhou pra mim. A Ana era bem magrinha, uns 45 anos: “Adoro!”. Nos tornamos amigas. Conversamos sobre muitos livros. Uma figura a Ana, subindo e descendo com literatura.
Um dia, tentei escrever um conto pensando nas duas. Saiu o que segue. Usando as duas, mesmo sem pedir licença. Mas com muito carinho. O conto integra o livro Contos de Oficina 28 (WS Editor/Porto Alegre/2002), organizado pelo professor e escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, super mestre, que nos deu aula durante um ano.

Minha vida é um livro aberto

Ana chega ao trabalho com o livro embaixo do braço. A mesma cena de sempre: o livro embaixo do braço, a sacola marrom com o almoço e o casaquinho para a saída, no início da noite. Entra no prédio comercial da Rua dos Andradas. Dá um bom dia simples ao porteiro e espera o elevador. A porta se abre e Ana dá um passo para dentro. Aperta o botão para prender o elevador e baixa o banquinho para sentar-se. Ajeita a sacola no cantinho. Ajeita também o corpo magro no cantinho, acomodando-se com tranqüilidade em seu lugar cotidiano. Tira o livro debaixo do braço e vai para a página 30, na marcação de ontem.

- Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar e te mostrarei o pôr-do-sol mais lindo do mundo...

Chega a moça da imobiliária do terceiro andar. Entra no elevador, a saudação vem do olhar. Ana aperta o botão com o número três. “Sobe”. Fecha-se.

Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada...

O terceiro andar tem poucas salas ocupadas, mas sempre há um office-boy esperando para subir mais, entregar mais encomendas, falar com o senhor fulano do oitavo. Ana segura o botão: a secretária sai, o garoto entra, agitado com o rádio nos ouvidos. Ana é quieta. “Sobe”. Fecha-se.

Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou a olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha um sorriso meio inocente, meio malicioso.

“Oitavo”. A porta do elevador se abre e o boy desce apontando a cabeça para um lado e para outro, procurando a sala, o número, o senhor fulano. Ana segura um pouco o elevador. Deixa a porta se fechar devagarinho, como aprendeu a controlar. Fecha-se.

- Ricardo, abre isso imediatamente! Vamos, imediatamente! – ordenou, torcendo o trinco. – Detesto este tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida.

Naquele horário das nove e pouco o movimento é lento no prédio. Ana desce até o térreo sozinha.

Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr-do-sol mais bonito do mundo.

Ela sacudia a portinhola.


Ana lembra-se da filha.. Fica pouco com ela. Passa mais tempo ali, das oito às seis. O elevador está de volta ao térreo. O porteiro olha um folheto de loja. A porta fica aberta. O elevador preso.
Chegam dois rapazes da representação técnica do décimo. Ana espera um pouco. O porteiro grita: “sobe”. Entram mais dois, desconhecidos, para o quinto. O porteiro grita: “sobe”. Entram mais três, os advogados do sétimo. Ana dá uma olhada para fora. Solta o elevador. A porta bate, o elevador é velho, de prédio velho. Faz oito anos que Ana conhece aquilo ali. Começa a subida. Ana conhece bem os comandos. Ana conhece bem cada pessoa daquele prédio. Ana abre e fecha.

Guardando a chave no bolso ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:

São muitas pessoas no elevador. Barulho.

- Não!

“Quinto”. Abre. Descem os desconhecidos. “Sobe”. Fecha-se.

Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado...

Os advogados sempre conversam muito no elevador. Atrapalham a leitura. Mas Ana é quieta. “Sétimo”. Ana tem os controles, faz a porta abrir-se devagar, angustiante.

Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento.

Os advogados descem. “Sobe”. Fecha-se. Passa o nono, chega ao décimo. Abre. Descem os técnicos do décimo. “Desce”. A porta se fecha devagar. O elevador desce devagar. Ana está terminando, ali, sozinha, no cantinho.

Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.

Térreo. Abre-se. Ana vira a página para o próximo conto.


Obs.: As passagens em itálico foram retiradas do conto “Venha ver o pôr-do-sol”, de Lygia Fagundes Telles.

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Edição: Alexandre Gonçalves

Reprodução permitida, desde que solicitada por email ou nos comentários.

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