segunda-feira, 27 de dezembro de 2004

A verdadeira razão social

Como editor de uma revista de negócios, é gratificante comprovar que a preocupação com questões sociais já está inserida na gestão das empresas brasileiras. Nesse contexto, cabe à imprensa, o papel de acompanhar e propagar o valor que essas empresas agregam ao se tornarem socialmente responsáveis. E disso, a partir dos bons exemplos divulgados, contribuir para que outras sigam pelo mesmo caminho.

Mas desde que a responsabilidade social passou a ser um assunto freqüente e de grande visibilidade na mídia, sinto que o trabalho de peneirar pautas e fontes a respeito do tema ganhou novas dimensões. É preciso saber diferenciar os verdadeiramente responsáveis dos “responsáveis de ocasião”. O desafio é identificar o grau de “sinceridade” e a amplitude do envolvimento da empresa com questões sociais. Caso contrário, espaços generosos poderão ser concedidos a quem, no fundo, não merece.

Essa avaliação vem da sensação de que, para muitos, ser “social” se resume a adotar atitudes filantrópicas – que são importantes, sem dúvida, mas uma empresa agir com responsabilidade é muito mais que isso. É também contribuir (e muito) para a engrandecimento da cidadania. É aquela velha história de dar o peixe, mas também ensinar a pescar. E essa talvez seja a contribuição mais valiosa que as empresas podem dar: levar muito mais que um prato de comida para os menos favorecidos.

Empresas que adotam essa gestão social mais ampla, certamente garantem um espaço de destaque na mídia. Ao lado também daquelas que não fazem responsabilidade só para a torcida. Ou seja, empresa que junto ao seu público interno também agem de forma socialmente correta. O que dizer, por exemplo, quando a empresa resolve apoiar um projeto externo que é uma antiga reivindicação dos funcionários mas que é sempre deixada para depois? Não se trata de ciúme bobo ou algo que o valha, é apenas uma questão de agir com correção com aqueles que são os verdadeiros porta-vozes da empresa.

Imagine um repórter entrevistando um diretor que se esbalda ao enumerar as ações sociais da empresa. Meia-hora depois, o mesmo repórter colhe depoimentos de funcionários, que, por sua vez, enumeram falhas gritantes da empresa no tratamento dispensado aos “colaboradores”. É mais ou menos assim: uma empresa aparece na mídia por apoiar um evento social importante. Uma semana depois, aparece na mídia outra vez, mas agora por causa de uma enorme dívida contraída pelo não-pagamento de direitos trabalhistas de seus funcionários. Certamente, não é dessa (ir)responsabilidade que a sociedade precisa. Todos, e a imprensa especialmente, devem ter um cuidado redobrado ao abordar o assunto para valorizar aquelas empresa que tem e sabem qual é sua verdadeira “razão” social. De verdade.

(Texto escrito por mim a pedido da agência de publicidade Usina Bigger, de Santa Maria, no Rio Grande de Sul, que desenvolve uma série de ações no chamado “Terceiro Setor”. O texto foi publicado na coluna que a agência mantém no jornal NH)

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