Minha nova namorada - Coluna Extra

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segunda-feira, 11 de outubro de 2004

Minha nova namorada

de Fernando Sabino (1923-2004)

Tenho a informar que arquivarei a partir de hoje, espero que para todo o sempre, esta máquina de escrever na qual venho juntando palavras como Deus é servido, desde que me entendo por gente.
Não a mesma, evidentemente. Ao longo de todos estes anos, da velha Remington Rand no escritório de meu pai, passei pela Underwood, a Olympia, a Hermes Baby, a Hermes 3.000, a Smith Corona, a Olivetti, a IBM de bolinha, algumas de mesa, outras portáteis ou semi-portáteis. Todas mecânicas, com exceção desta última, que é elétrica.
Pois agora aqui estou, pronto a me passar para algo mais sério, iniciar uma nova aventura amorosa. Sim, porque segundo me ensinou minha filha, que entende de ambos os assuntos, os computadores e as mulheres têm uma lógica que lhes é própria e que devemos respeitar. Pois vamos ver como esta computa - e nem o palavrão contido em seu nome sugere-me outra coisa senão que se trata de minha nova e casta namorada.
Assim como para o homem tudo se ilumina na presença da mulher amada, para o escritor este invento é uma forma igualmente luminosa de realizar a sua paixão pela palavra escrita. Não é uma simples máquina de escrever, que funciona como intermediária entre o escritor e a escrita, às vezes se tornando um obstáculo para a criação literária. Ao contrário, o computador estabelece uma surpreendente intimidade com o texto do momento mesmo de sua elaboração. Permite emendas, acréscimos, supressões, transposições de frases e parágrafos com uma velocidade milagrosa. Deve ter alguém lá dentro comandando tudo, provavelmente uma mulher, uma japonesinha, na certa. Ela dá instruções, chama nossa atenção se esquecemos de ligar a impressora, conversa com a gente: "Operação incorreta. Tente de novo". E quando dá certo: "Operação executada com êxito". Só falta acrescentar: "Meus parabéns. Eu te amo!"
Escrever, que durante tantos anos constituiu um tormento para mim, passará a ser um caso de amor. Nunca mais olharei sequer para a máquina de escrever. Serei radical: ou entregar-me a este conúbio com o computador, no suave embalo de suas teclas e no luzente sortilégio de suas letras, ou regredir à solidão do celibato, em companhia da austera e rascante pena de pato.
Imagino só a felicidade de Tolstoi, se pudesse ter escrito todo a "Guerra e Paz" com a mesma facilidade com que passei a escrever esta crônica no computador.
Pois então lá vai:

O melhor de um computador está nisso: poder

torocar uma palavra a vo tade, mudar de idéia sem mudar o papel

Sem usar o papel. Uma das vantagens do

computador é poder corrigir tuDO o fimmmm. Nã precisa de-

caneta

Máquina de escrever e canheta já eram. Num com puta dor o

sonho de um escritor se realiza: o da perfeição absoluta de uma

semntença, graças à facilidade em, mudar palavras, cortar, acrescen

tar. O sonho do escritor e de toda a humanidade

O SONHO DA HUMANIDADE DE ATINGIR A PERFEIÇÃO

atingir a perfeição

A perfeição que a humanidade sonha em atingir Sonha atingir

Que o homem sonha alcançar conseguir realizar

Muita gentye fica admirada ao percebner a facilidade com que

Muita gente se admira com a facilidade

Muitos leitores se admirão com a aparente facilidade com que

escreverei fraes quae perfeitas escrevo sentenças textos quase per-

feitos depois que abandonei troquei a máquina de escrever esta sim

uma engenhoca de tração animal por esta fabulosa invençção

esta prodigiosa admirável estupenda assombrosa espanto-

sa m,iraculosa, extraordinária maravilhosa até pa-

rece que os sinônimos fabulosa ocorrem com mais faci-

lidade sem precisar consultar dicionários d sinônimos,

Desde que é mais fácil revisar e editar um texto computado? Compu-

torizado computadorizado do que escrito a mÁQUINA OU A MÂO

torna muito

extremamente difícil impossível parar de revisae-

editarosuficiente para resultar çuma frase

legível

quanto mais uma crônica sobre a nova namoraddaPOISStãa pois

então vai assim meso!!!#@@@***boa x.sorte procês...

(Texto extraído do livro No Fim dá Certo, Editora Record - Rio de Janeiro, 1998, pág. 106).

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